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sábado, 17 de janeiro de 2009

O gato

Eu o vi pela primeira vez numa noite de julho. Estava na garagem da minha casa e, apesar de ainda não me conhecer, veio me recepcionar. Como se ele fosse o dono da casa e eu a visita. Ninguém sabia ainda, mas era exatamente isso que se passava na sua cabeça. Achei-o pequeno e com ar inocente. Chamei minha mãe para vê-lo e ela disse que já o tinha visto naquela tarde. Acrescentou que não era para eu ficar agradando "aquele bicho" porque, do contrário, ele não iria mais embora. Colocamos o gato pra fora do portão e entramos na casa. Da janela da sala eu podia vê-lo acompanhando as pessoas que passavam. Ele parecia estar perdido ou, então, procurando por um novo dono.
No dia seguinte, ao acordar, me levantei com minha mãe informando que o gato estava dormindo na floreira e, novamente, me advertiu que ele não deveria ser agradado para que ele fosse embora. Concordei. Doía pensar nos gatos que eu já tinha tido e na maneira como eles me deixaram. Achei que seria, para dizer o mínimo, cauteloso de minha parte que não deixasse meu coração se apaixonar novamente por um bichano.
Saí para trabalhar e retornei pouco depois do horário do almoço. O gato ainda estava lá, dormindo. As 16 horas, minha mãe começou a se preocupar, pois o gato, ainda que não tivesse recebido carinho, se recusava a ir embora. Quando percebeu que estava sendo observado, levantou-se e veio ao nosso encontro. Rapidamente, minha mãe o pegou e passou-o pelas grades do portão, oferecendo-lhe a rua. Mas o gato tinha outros planos e, tão rápido quanto fora posto para fora, passou pelas grades novamente e entrou em nosso quintal.
Penalizada porque ele não havia comido nada desde a manhã, minha mãe acabou servindo-lhe um pouco de sardinha. Foi um banquete. E não é necessário muito esforço para imaginar que aquela atitude de minha mãe fez com que o gato decidisse mesmo ficar. E foi essa mesma atitude que me deu sinal verde para acariciar aquela bolinha de pêlos!
Como o gato dormia o dia todo e boa parte da noite também, demorou uns três dias para que meu pai - que odeia gatos - descobrisse que tínhamos um novo membro na família. E, quando descobriu, não adiantou esbravejar... o gatinho já tinha nos conquistado! O que nem imaginávamos é que, não muito tempo depois, ele conquistaria meu pai também!
Decidimos que ele, por ter uma mancha preta acima da boca, como se fosse um bigode - de gaúcho ou de português - se chamaria Felipão, homenagem ao técnico de futebol que, além de gaúcho, estava trabalhando com a seleção de Portugal.
Felipão mostrou-se, desde o início, um gato amável, extremamente bonzinho e carinhoso. Como todo gatinho, era também travesso! No seu primeiro Natal conosco, brincava com as bolas da árvore e, depois disso, ganhou uma coleção de bolinhas de borracha. Tinha o péssimo hábito de afiar as garras no sofá e, não contente com isso, por vezes escalava a cortina da sala. Mas, era também, um gato desprovido de instinto felino: caía do muro e, pior, não se virava durante a queda para que caísse em pé! Era tão bobinho que deixou, certo dia, alguma criança malcriada e sem noção cortar-lhe os bigodes!
Gostava de me acordar. Quando minha mãe descuidava, ele subia as escadas e ia miar na porta do meu quarto! Não importava onde eu estava, ele queria estar junto... Quando eu chegava do trabalho, mesmo que eu não fizesse o menor barulho, ele sabia que eu tinha chegado e corria para me receber. Era um gato com alguns comportamentos caninos.
Felipão não era um gato maldoso... Não arranhava e não mordia, mesmo quando muito provocado. Gostava de carinho, gostava de ser mimado.
Quando fui chamada para trabalhar no interior de São Paulo e passava a semana toda fora, vindo para casa somente às sextas-feiras a noite, Felipão fez greve de fome. Assim... decidiu parar de comer. Ficou debilitado. Precisou ser internado. Mas o danado só saiu da greve depois que eu me demiti. Foram dias difíceis para nós dois. E eu não me arrependo do que fiz.
Esse gatinho, que escolheu a casa em que queria morar e "bateu o pé" para ficar ali, dividiu comigo dois anos e meio da sua vidinha. Encheu a minha vida de alegria e me fez ver o mundo com mais cor. Me ensinou que, por amor, vale tudo e que tudo tem mais graça quando se ama e se é amado. Nós éramos assim... Era um amor silencioso, mas fortemente presente.
Ele me deixou há dois meses. Não sei, ao certo, o que lhe aconteceu. Na verdade, não quero pensar nisso. Quero ficar com as lembranças dos maravilhosos momentos que tivemos. Mas é triste não escutar o miadinho na porta. É triste não ver novos arranhados no sofá ou novos desfiados na cortina da sala. É triste não ver a caminha dele no lugar ou a coleção de bolinhas espalhadas pela casa. Mais triste ainda é encontrar um ou outro pêlo numa roupa e saber que não haverá novos pêlos para eu ter que escovar... Ele me faz muita falta!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Crônica II

_ Alô!
_ Alô, Regina?
_ Isso! Quem está falando?
_ Não reconhece a minha voz?
_ É... Hum... Ah, sim, claro! (Essa mania de não querer decepcionar os outros). Como vai?
_ Eu estou bem, e você?
_ Melhor agora, falando com você! Quando tempo, não é? (Nossa! Mania maldita!)
_ Tempo? Tá brincando! Uma eternidade! Como vai a família?
_ Estão todos ótimos! E... e a sua?
_ Bem também! Só o Pedrinho que vai fazer recuperação nas férias, mas de resto tá tudo bem!
_ (Um nome a mais pra eu tentar descobrir com quem falo. Mas... Pedrinho? Quem é Pedrinho?) Pôxa! Que pena!
_ É sim... Mas agora ele aprende! Então, eu tô te ligando pra pedir a receita daquele bolo que você fez na última vez em que nos encontramos! A Sílvia tá doida querendo experimentar! Sabe como é... grávida não pode passar vontade!
_ (Bolo? Que bolo? Quem é Sílvia? Será que é a mãe do tal Pedrinho???) Ah, tá... Era bolo de quê mesmo?
_ Ah, Regina! Vai dizer que já esqueceu? Era aquele bolo, receita da sua avó!
_ (Puta que pariu! Que bolo é esse?) Nossa! Preciso procurar a receita... E tá uma bagunça, porque mudei de casa na semana passada e ainda não terminei de arrumar as coisas!
_ Ah é? Onde você tá morando agora?
_ No mesmo bairro... Quatro ruas abaixo da antiga casa.
_ Entendi... Tá morando sozinha? Ou conseguiu perdoar teu marido?
_ Perdoar? Perdoar por quê?
_ (Xiii... acho que falei demais) Ah, nada não!
_ Agora fale! O que você sabe que eu não sei?
_ Ele disse que ia te contar... Sobre a secretária dele. Eles tiveram um caso e ela está grávida.
_ (muda)
_ Alô, Regina? Tá aí ainda?
_ Sim... mas sem saber o que dizer! Espera um pouco! Ele tá chegando! Vou tirar essa história a limpo e já volto. Não desligue!
_ Tá!
(Passam-se 15 minutos. Nesse tempo, ouve-se discussão. Choro. Barulho da porta batendo.)
_ Alô (com a voz embargada).
_ Oi Regina! Tava preocupado! O que aconteceu?
_ Acabei de pôr o Alfredo pra fora de casa! Ele jurou inocência, mas eu não acreditei! Joguei todas as roupas dele pela janela e disse que nunca mais quero vê-lo!
_ Alfredo?
_ É... meu marido.
_ Mas seu marido não se chama Eduardo?
_ Não! Nunca fui casada com um Eduardo!
_ Ah, desculpe! Acho que liguei pra casa errada!
tu tu tu tu tu tu tu tu

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Crônica

Era mais de meia-noite e ela não conseguia dormir. Sentia-se angustiada, confusa, triste.
Irremediavelmente as lágrimas começaram a lavar-lhe a face pálida. Não conteve o soluço que lhe oprimia o peito e chorou copiosamente. Estava com pena de si mesma. Mas sabia que precisava mudar, que precisava, ela mesma, distribuir as cartas no jogo. Não podia permitir que as hábeis mãos do destino fizessem dela uma marionete.
Levantou. Olhou-se no espelho e não conseguia se reconhecer. Estava magra, abatida. Sentia-se desprotegida. Não encontrou o brilho costumeiro no olhar. Via-se diante de uma estranha.
Onde estavam os planos? Por que não conseguia mais sonhar com o mesmo entusiasmo?
E, então, sentiu-se vazia, oca. Nada por dentro... Nada! Aquela estranha do espelho não podia ser ela. Parecia tão... frágil! Pensou que nada mais fazia sentido. E de que adiantava viver por viver? É... a vida tinha perdido a graça.
Como se estivesse assistindo um filme, foi capaz de voltar algumas cenas da própria vida. Procurou se lembrar onde, exatamente, tinha errado. O mais desesperador é que não conseguia saber em que momento tinha deixado a felicidade escapar-lhe, como a areia fina que escapa entre os dedos.
Repensou suas atitudes, suas decisões e... nada! Por mais que se esforçasse, era como se o diretor do filme houvesse editado-o, cortado aquela parte. Talvez ele soubesse que não faria bem a ela recordar.
Olhou-se novamente no espelho. Achava-se tão pequena! Observou o rosto algum tempo. Deteve-se nos lábios. Achava os lábios bonitos. Eram cor de carmim. Observou o resto do corpo. Apesar da magreza, achou que era bem desenhado. Tentou imaginar se alguém, algum dia, já tinha achado isso também. Agora isso não parecia ter qualquer importância.
Saiu do quarto, nua, e caminhou pelo apartamento vazio. Entrou em todos os cômodos e nenhum deles lhe despertou qualquer lembrança verdadeiramente feliz.
Nesse momento, já não havia mais lágrimas. Elas tinham secado. Ela tinha secado. Estava seca e não tinha mais sede de viver.
Abriu a porta e olhou pela sacada. A noite estava fria, mas ela não sentia frio. Ficou olhando os poucos carros que passavam na rua. Primeiro de longe. Depois mais perto. E mais perto ainda. Sentiu uma dor dilacerante. E, depois, não sentiu mais nada.