Era uma vez uma menina dos cabelos de milho e olhos de fubeca. Ela era, desde muito pequena, determinada e decidida, e queria abraçar o mundo! Gostava de liderar, era criativa e bem quista por muitos. Gostava de ler antes mesmo de saber ler... Todas as noites, com um livro nas mãos, fingia ler histórias para a irmã... Decorava, de tanto ouvir, histórias em quadrinhos e sabia, exatamente, o que estava escrito em cada balão.
Era apaixonada por palavras. Conseguia sentir o sabor delas... como se fossem ingredientes de um grande prato! Imaginava que quando crescesse iria escrever! Dizia ao pai que faria parte da Academia Brasileira de Letras (rsrs)! Dizia também que queria ser médica, pois queria cuidar das pessoas. Ela tinha mesmo muitos sonhos.
Quando aprendeu a ler, começou a devorar os livros das irmãs... Não eram livros para ela, a caçula da família, mas, ainda assim, ela gostava. Adorava quando a escola pedia uma leitura - e, provavelmente, era a única da sala que gostava.
Aí, ela começou a escrever... Primeiro, historinhas que assistia na TV cultura. Depois, quando cresceu um pouco mais, decidiu que escreveria um livro. E assim fez: ele teve 22 capítulos. Dois anos depois, jogou o livro fora, porque achou que era ingênuo demais (se arrependimento matasse, hoje ela estaria morta por isso!). Mais tarde, escreveu poemas e, de repente, parou de escrever...
De repente, a menina mudou! Passou a ser mais séria, mais "certinha" e, talvez, mais chata... Afinal, não se permitia errar. E, sabemos, erros fazem parte do aprendizado! Ela não podia ser boa... Tinha que ser a melhor! E começou a se cobrar muito! E foi deixando de viver assim... naturalmente. Apesar disso, a menina dos olhos de fubeca e dos cabelos de milho continuou a estudar e continuava com o paladar apurado... ainda sentia o sabor das palavras e tinha, dentro dela, o gosto pela vida, pelo novo, pelo desconhecido! Nesse tempo, que durou alguns anos, ela se formou e, diferentemente do que dizia ao pai, não quis mais ser médica... Virou fonoaudióloga porque queria que aqueles que sofressem com as palavras pudessem sentir o mesmo sabor que ela! Depois, não satisfeita com isso, virou lingüista. Queria que todos saboreassem com ela o sabor das palavras!
Mas, um dia, ela se cansou da vida que levava! Ela queria mais! Não bastava ser a boa filha, a boa profissional, a menina responsável... Ela queria, como sempre quis, abraçar o mundo! Quebrou vínculos, desatou nós e enfrentou todos com a coragem que só aqueles que sentem muito prazer em viver poderia fazer! E ela sofreu... Mas sabia que tudo era só uma fase e que esse sofrimento iria passar! Na verdade, ela voltou a ser o que sempre fora: determinada e decidida! E, ainda que muitos não conseguissem entender isso, ela, de verdade, não se importava. Ela queria só estar bem com ela mesma! Ela só queria ser feliz!
E, apesar da história começar com "era uma vez", gênero de escrita dos contos de fadas que, invariavelmente, termina com "e foi (ou foram) feliz (es) para sempre", essa história não termina assim, porque ainda não terminou e, mesmo que eu quisesse escrevê-la com um final, poderia mudar, já que a chef deste banquete sou eu... Saboreiem essas palavras!