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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Respostas incongruentes às questões existenciais

Sou esboço em aquarela que se transforma com lágrimas
Sou louça fina cuja beirada é trincada
Sou passo firme, mas sei ser suave
Sou brilho nos olhos
Sou silêncio latente
E barulho irritante
Sou previsivelmente inconstante
Sou colcha de retalhos fortemente alinhavados
Sou cabelos desgrenhados
E textos não acabados
Sou onda que encobre
Tecido que encolhe
Verdade que se escolhe
Sou abraço que aquece
Beijo que enternece
Finitude que entristece
Sou pequena se olhada de cima
Sou grande se olhada de baixo
Então me olhe de frente, porque não sou mais e nem menos que você
E as palavras que você não disse eram exatamente as que eu precisava escutar
E quem vai dizer o contrário?

Recomendações de uma jovem de 25 anos (para ela mesma e para quem mais interessar)

Viva ao máximo, fazendo todas aquelas coisas que não se permitia fazer por vergonha, medo de críticas e julgamentos, ou para agradar os outros. Não perca mais seu bom e precioso tempo implicando com as coisas que julga erradas nos outros nem busque reconhecimento nos outros. Viva para si. Usufrua a sua vida de agora em diante fazendo as coisas que são importantes para si e sendo o mais feliz que conseguir. Trate-se bem!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Eu queria...

Eu queria ter tido menos juizo
Queria não ter feito muitas coisas que fiz
E fazer outras tantas que não fiz
Queria não ter falado pelo menos metade das coisas que falei
Queria ter escutado mais
Queria ter chupado mais sorvete no inverno
Ter tomado mais chuva
Ter andado descalça
Ter esquecido a blusa em casa
Eu queria ter viajado mais
Ter beijado mais
Namorado mais
E brigado menos
Eu queria ter seguido menos conselhos
Queria ter burlado mais as regras
Queria ter gasto todo meu salário em sapatos
E pedido dinheiro emprestado pra pagar outras contas
Queria ter bola de cristal
Queria mandar no meu coração
Queria sair sem dar satisfação
E, se possível, não voltar mais!

domingo, 19 de outubro de 2008

"Sobre minha avó" ou "Por que eu escrevo?"

Ultimamente tenho ouvido com certa freqüência, e de diferentes pessoas, que eu escrevo bem. De maneira muito peculiar, esse é um elogio que me deixa feliz. Sim, porque, convenhamos, na nossa cultura o valor que é dado à escrita está muito aquém do valor que se dá à bunda (com o perdão da palavra) ...
Penso que no último post toquei na questão da escrita quando esclareci o sabor que as palavras têm para mim. É claro que não me referia só a escrita, mas ela, particularmente, me atrai. Engraçado... quando estava estudando para me formar fonoaudióloga ouvi duras críticas à cartilha "Caminho Suave" (que utilizei na pré-escola) e outras cartilhas; críticas que apontavam para a falha da criança na alfabetização por meio dos métodos tradicionais, ou melhor, críticas que apontavam para a falha dos métodos tradicionais na alfabetização da criança. Embora tenha dito que utilizei a cartilha Caminho Suave não foi com ela que me alfabetizei e garanto que não tive qualquer problema na aquisição da linguagem escrita, ainda que esta tenha ocorrido exatamente pelo modo tradicional. Mas imagino ter uma explicação para isso. Quer dizer, nem toda criança alfabetizada pelo método tradicional vai ter problemas de escrita (aliás, conheço muitas que não tiveram...), mas eu diria que eu tenho um vínculo afetivo muito maior e a escrita é tão importante para mim porque quem me ensinou a ler é uma pessoa muito mais que especial! Uma pessoa 54 anos mais velha que eu. Uma pessoa que, sequer, pôde estudar muito além do nível de alfabetização... Falo da minha avó!
Dona Ana, casada com o Sr. Uilter... Teve três filhos e, do modo que pôde, ensinou-lhes a ler. Guardou a cartilha (que imagino ter sido comprada com certo esforço) quando os filhos já estavam alfabetizados. Os filhos cresceram, estudaram, formaram-se, casaram-se e aí vieram os netos... uma "escadinha": a primeira em 1978, a segunda em 1979, a terceira em 1980, o quarto em 1981, a quinta (eu) em 1983 e a sexta em 1986. Todos (ou quase todos), alfabetizados pela mesma cartilha com que os pais tinham aprendido a ler... todos (ou quase), alfabetizados pela mesma mulher de pouco estudo... Olha que especial! Quer vínculo mais forte do que esse? Quer relação mais especial do que esta? Fico pensando como ela deve se sentir vendo o rumo que a vida dos filhos e agora a dos netos tomou (e está tomando)... Quer dizer, não sei se ela pensa nisso ou se ela tem essa noção, mas acredito que ela é a grande responsável pela paixão que eu tenho pelas palavras.
E, então, às vezes eu me pergunto, por que eu escrevo? Será que é para extravasar toda essa paixão? Eu diria que é muito mais do que isso... Quando falamos, muitas vezes, a palavra se perde... E isso pode ser por muitos motivos, mas penso que o principal é porque as pessoas não sabem escutar (vejam bem, eu disse escutar, e não ouvir). Acho que é por isso que presto tanta atenção ao que os outros me dizem, mesmo que seja uma coisa banal (quer dizer, se foi dito é porque, para quem disse, não é tão banal assim...). Mas, se isso acontece com a fala, o mesmo eu não posso dizer da escrita! O escrito é eterno! Olha que profundo isso, não? "O escrito é eterno".
Quer dizer, tudo muda, inclusive a convicção do escritor sobre o que já escreveu, mas o escrito continua lá, confirmando o dito ou apontando um equívoco.
Bem, então, por que eu escrevo? Penso que escrevo porque escrever me faz ser alguém, me faz mais humana. Escrevo porque a escrita me livra daquilo que me oprime, daquilo que é difícil, daquilo que não cabe mais em mim.
Mas, escrever tem certas regras (muitas, eu diria)... Estou tentando não seguir mais todas as regras. Estou tentando dar um pouco mais de emoção à minha vida. E, por isso, esse post não terminará com um ponto. Não quero obedecer esta regra. Ele vai terminar com uma vírgula... Assim,

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sobre o sabor

Era uma vez uma menina dos cabelos de milho e olhos de fubeca. Ela era, desde muito pequena, determinada e decidida, e queria abraçar o mundo! Gostava de liderar, era criativa e bem quista por muitos. Gostava de ler antes mesmo de saber ler... Todas as noites, com um livro nas mãos, fingia ler histórias para a irmã... Decorava, de tanto ouvir, histórias em quadrinhos e sabia, exatamente, o que estava escrito em cada balão.
Era apaixonada por palavras. Conseguia sentir o sabor delas... como se fossem ingredientes de um grande prato! Imaginava que quando crescesse iria escrever! Dizia ao pai que faria parte da Academia Brasileira de Letras (rsrs)! Dizia também que queria ser médica, pois queria cuidar das pessoas. Ela tinha mesmo muitos sonhos.
Quando aprendeu a ler, começou a devorar os livros das irmãs... Não eram livros para ela, a caçula da família, mas, ainda assim, ela gostava. Adorava quando a escola pedia uma leitura - e, provavelmente, era a única da sala que gostava.
Aí, ela começou a escrever... Primeiro, historinhas que assistia na TV cultura. Depois, quando cresceu um pouco mais, decidiu que escreveria um livro. E assim fez: ele teve 22 capítulos. Dois anos depois, jogou o livro fora, porque achou que era ingênuo demais (se arrependimento matasse, hoje ela estaria morta por isso!). Mais tarde, escreveu poemas e, de repente, parou de escrever...
De repente, a menina mudou! Passou a ser mais séria, mais "certinha" e, talvez, mais chata... Afinal, não se permitia errar. E, sabemos, erros fazem parte do aprendizado! Ela não podia ser boa... Tinha que ser a melhor! E começou a se cobrar muito! E foi deixando de viver assim... naturalmente. Apesar disso, a menina dos olhos de fubeca e dos cabelos de milho continuou a estudar e continuava com o paladar apurado... ainda sentia o sabor das palavras e tinha, dentro dela, o gosto pela vida, pelo novo, pelo desconhecido! Nesse tempo, que durou alguns anos, ela se formou e, diferentemente do que dizia ao pai, não quis mais ser médica... Virou fonoaudióloga porque queria que aqueles que sofressem com as palavras pudessem sentir o mesmo sabor que ela! Depois, não satisfeita com isso, virou lingüista. Queria que todos saboreassem com ela o sabor das palavras!
Mas, um dia, ela se cansou da vida que levava! Ela queria mais! Não bastava ser a boa filha, a boa profissional, a menina responsável... Ela queria, como sempre quis, abraçar o mundo! Quebrou vínculos, desatou nós e enfrentou todos com a coragem que só aqueles que sentem muito prazer em viver poderia fazer! E ela sofreu... Mas sabia que tudo era só uma fase e que esse sofrimento iria passar! Na verdade, ela voltou a ser o que sempre fora: determinada e decidida! E, ainda que muitos não conseguissem entender isso, ela, de verdade, não se importava. Ela queria só estar bem com ela mesma! Ela só queria ser feliz!
E, apesar da história começar com "era uma vez", gênero de escrita dos contos de fadas que, invariavelmente, termina com "e foi (ou foram) feliz (es) para sempre", essa história não termina assim, porque ainda não terminou e, mesmo que eu quisesse escrevê-la com um final, poderia mudar, já que a chef deste banquete sou eu... Saboreiem essas palavras!